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O cachimbo

Conversas de uma manhã de lazer.  Conversas voláteis como o fumo que sai do cachimbo do reformado. Não servem para grande coisa, a não ser para poluir o ambiente. Discute-se o estado do país e as perspetivas do futuro, como se houvesse futuro para a maior parte das pessoas. O futuro depende de vários fatores, trabalho, dedicação e honestidade. Trabalhar dói. Há quem não goste. Olho em redor e vejo muitas pessoas que pouco ou nada fizeram a não ser terem passado parte da vida à espera da tão desejada reforma. Coitados, conseguem iludir-se de que fizeram algo pela sociedade. Alcançaram o seu desiderato. Um deles espraia-se na esplanada, vomitando, indolentemente, fumo aromático e comentando o estado da nação propondo soluções. Não sei se sabe o que é trabalhar; há muito que está inativo, antes da menopausa caso fosse mulher. Até a isso foi poupado; poderia dar-lhe muito trabalho. Olho e ouço as tiradas habituais, tão ou mais poluidoras que o fumo aromático que inunda o espaço em redor. Um português típico, cansado e preocupado com o povo. O trabalho nunca lhe correu nas veias, comenta-o entre duas valentes plumas através de indolentes verborreias.


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Fugir

Tenho que fugir à rotina. A que me persegue corrói-me a alma e destrói a vontade de saborear o sol e de me apaixonar pela noite.  Tenho que fugir à vontade de partilhar o que sinto. Não serve para grande coisa, a não ser para avivar as feridas. Tenho que fugir à vontade de contar o que desejava. Não quero incomodar ninguém. Tenho que fugir de mim próprio. Dói ter que viver com o que escrevo.

"Salvem todos"...

Tenho que confessar, não consigo deixar de pensar nos jovens aprisionados na caverna tailandesa. Estou permanentemente à procura de notícias e evolução dos acontecimentos. Tantas pessoas preocupadas com os jovens. Uma perfeita manifestação de humanidade. O envolvimento e a necessidade de ajudar os nossos semelhantes, independentemente de tudo, constitui a única e gratificante medida da nossa condição humana. Estas atitudes, e exemplos, são uma garantia que me obriga a acreditar na minha espécie. Eu preciso de acreditar. Não invoco Deus por motivos óbvios. Invoco e imploro que os representantes da minha espécie façam o que tenham a fazer para honrar e dignificar a nossa condição. Salvem todos, porque ao salvá-los também ajudam a salvar cada um de nós.

São Sebastiao

Tarde de domingo de inverno. Um sol infantil diverte-se convidando os desejosos de calor a espraiarem-se debaixo dos seus raios. Não lhe respondi, tinha de ir a um funeral. Na estrada secundária observei um movimento inusitado para aquele lado meio deserto. O que é que estará a acontecer? Ao fim de meia centena de metros observo uma mancha escura e silenciosa a invadir a estrada. Estacionei o mais possível à direita para deixar passar uma estranha procissão. Para a terríola era muita gente, de idade a maioria, vestidos de escuro, com uma ou outra criança com ar divertido e um casal de namorados que, indiferentes ao momento, iam manifestando ternura amorosa. Os devotos iam ao molhe, sem ordem, até pareciam uma coorte romana a ir para a batalha. As suas faces eram dignas de fazerem parte dos quadros da Paula Rego. Ainda procurei sinais de alguma devoção, mas, sinceramente, não consegui vislumbrar, pelos menos nos que foram alvo da minha atenção. Senti que nos tempos do paganismo hordas s...