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"Templo"...


Entrei no templo ao final da tarde. A mistura de sol, sombra e ar fresco não me incomodou, empurrou-me delicadamente para a entrada. Fiquei encostado à parede. Olhei e não havia lugar para mim. Fiquei. Tinha de ficar. Olhei e abarquei todo o espaço. Olhei e vi em toda a plenitude o velho templo repleto de pessoas. Olhei e recordei. Saiu daquele espaço há um ano, num dia gémeo ao de hoje, o sol era o mesmo, a brisa também e a claridade do ar, testemunha da pureza dos sentimentos de uma alma que partiu, vestiu-se com as vestes da tristeza. Fiquei. Assisti. Tinha que ficar. Tinha que assistir. Olhei e abarquei o meu passado. A mesma atmosfera, os mesmos santos, o mesmo encanto e a mesma beleza. Os pensamentos, esses não, mudaram, tinham que mudar, mas quiseram recordar outros, velhos, ingénuos, assustadores, agora transformados em saudade. Olhei para o altar e vi as duas portas que lhe dão acesso. Estou longe no espaço do templo e muito perto no tempo longínquo. Nunca me atrevi a passar aquela pequena porta, que, para uma criança, era grande demais. Disseram-me que não se podia passar por ela porque dava para as escadas do inferno. Eu tinha medo do inferno, e ainda tenho, confesso, por isso nunca a atravessei. Só de entreolhar, quando estava semiaberta, ficava assustado. Fechava instintivamente os olhos. Nunca percebi que se podia ir para o inferno através da porta lateral de um altar. Acreditei no que me disseram. Eu acreditava no que me diziam. Recordei, também, um dia de Natal em que fui beijar o menino Jesus a agradecer-lhe a prenda que tinha recebido, um lindo carro vermelho de corda. Foi ali, naquele templo, que, de calções, e indiferente ao frio, O beijei com tanta ternura que ainda hoje recordo esse momento de felicidade. Foi ali, naquele templo, que me fizeram chorar por não me terem permitido usar um archote na procissão da Quinta-Feira Santa. Os outros meninos levavam archotes. A mim não me deixaram. Roubaram o velho sonho de uma criança de nove anos. Fui atrás do Senhor dos Passos durante alguns metros, mas depois desisti, a tristeza provocou-me dores insuportáveis. Fugi para casa e chorei. Nunca mais fui com o Senhor dos Passos. Nunca mais fui com mais ninguém. Roubaram-me um sonho. Foi dali que levaram uma criança, a minha amiga, na carreta que ainda lá está, atrás das bandeiras assustadoras, que ainda lá estão, ao som de uma matraca que ainda lá está. Sempre que lá vou recordo estes episódios e vivo-os como se o tempo andasse ainda de calções. Agora tenho de somar mais um, quando a mistura de sol, sombra e ar fresco de um dia, gémeo ao de hoje, me perturbou, a lembrança de que esteve ali e dali saiu deixando-me a tristeza.
Um belo templo, onde pairam alegrias, medos, tristezas e saudades. Foi dali que saiu, num dia como o de hoje, em que a mistura de sol, sombra e ar fresco me perturbou. Hoje, a mistura de sol, sombra e ar fresco não me incomodou, empurrou-me apenas delicadamente para entrar no templo. Entrei e fiquei à porta. Olhei e abarquei tudo, o templo, a vida, o passado e ela...

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