O amanhecer nem sempre é sinónimo de um novo dia, por vezes anuncia-se sob a face fria da dor, assusta, inquieta e até mata. O sol eleva-se no horizonte e escalda o corpo. Corpo quente e alma fria, um contraste duro, doentio, que provoca ainda mais ansiedade. Depois, os olhos, remelados pela tristeza do amanhecer, procuram apenas o que é maléfico, querem fugir da dor mas não conseguem, buscam belas notícias e não conseguem, atormentando-se com agruras anunciadas. Um contraste feroz entre o sol solitário e as almas geladas que começam a cercar-me, a tocar-me e a quererem quebrar o frio da existência. Um caso lembra outro e esse ainda outro, numa cadeia ininterrupta de acontecimentos como se fosse uma escadaria em caracol a querer empurrar-me até às profundezas do inferno, onde um calor frio tenta imitar e convencer-me de que ali está o sol da vida. Uma forma enganosa para me atrair. Velha, mas não estranha. Sento-me, cansado, e deixo-me adormecer profundamente, convicto de poder fugir para um outro mundo. Fugi. Durante esse tempo não vi, não ouvi e nem senti nada. Apenas um cansaço, um cansaço agradável que apagou o triste cansaço de um estranho amanhecer. Será que o nascer da noite irá compensar a morte do amanhecer?
Tenho que fugir à rotina. A que me persegue corrói-me a alma e destrói a vontade de saborear o sol e de me apaixonar pela noite. Tenho que fugir à vontade de partilhar o que sinto. Não serve para grande coisa, a não ser para avivar as feridas. Tenho que fugir à vontade de contar o que desejava. Não quero incomodar ninguém. Tenho que fugir de mim próprio. Dói ter que viver com o que escrevo.
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