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"Ardor"...

Dia particularmente quente, tão quente a ponto de inibir a inspiração. Convida-me com uma doce sonolência e desafia-me para mergulhar na tranquilidade de uma sombra ou nas águas frescas de um rio. Dia particularmente quente, tão quente a ponto de querer que eu esqueça que o mundo existe. Afugenta-me das alegrias e empurra-me para o sossego de qualquer espaço sagrado. Dia particularmente quente, tão quente a ponto de esquecer o que não quero lembrar-me. Silencia-me tudo, as ideias, as esperanças, o passado e o futuro, e adoça-me com ambrósia dos deuses. Dia particularmente quente, tão quente a ponto de desejar procurar o meu local, onde a frescura tranquiliza a minha existência. Preciso de beber o seu ar, respirar a sua penumbra e adormecer em sonhos prometidos. O tempo não passa. Passa, passa depressa, quer o dia continue ou não particularmente quente, eu só quero que passes ó tempo, passa depressa, passa para poder descansar sem ti, num local onde não precisas de mim. Passa depressa tempo, passa depressa, dá-me um pouco de ti, que eu depois regresso e faço tudo o que me pedes em qualquer dia, mesmo que seja particularmente quente.

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Tenho que fugir à rotina. A que me persegue corrói-me a alma e destrói a vontade de saborear o sol e de me apaixonar pela noite.  Tenho que fugir à vontade de partilhar o que sinto. Não serve para grande coisa, a não ser para avivar as feridas. Tenho que fugir à vontade de contar o que desejava. Não quero incomodar ninguém. Tenho que fugir de mim próprio. Dói ter que viver com o que escrevo.

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