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"Ardor"...

Dia particularmente quente, tão quente a ponto de inibir a inspiração. Convida-me com uma doce sonolência e desafia-me para mergulhar na tranquilidade de uma sombra ou nas águas frescas de um rio. Dia particularmente quente, tão quente a ponto de querer que eu esqueça que o mundo existe. Afugenta-me das alegrias e empurra-me para o sossego de qualquer espaço sagrado. Dia particularmente quente, tão quente a ponto de esquecer o que não quero lembrar-me. Silencia-me tudo, as ideias, as esperanças, o passado e o futuro, e adoça-me com ambrósia dos deuses. Dia particularmente quente, tão quente a ponto de desejar procurar o meu local, onde a frescura tranquiliza a minha existência. Preciso de beber o seu ar, respirar a sua penumbra e adormecer em sonhos prometidos. O tempo não passa. Passa, passa depressa, quer o dia continue ou não particularmente quente, eu só quero que passes ó tempo, passa depressa, passa para poder descansar sem ti, num local onde não precisas de mim. Passa depressa tempo, passa depressa, dá-me um pouco de ti, que eu depois regresso e faço tudo o que me pedes em qualquer dia, mesmo que seja particularmente quente.

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Fugir

Tenho que fugir à rotina. A que me persegue corrói-me a alma e destrói a vontade de saborear o sol e de me apaixonar pela noite.  Tenho que fugir à vontade de partilhar o que sinto. Não serve para grande coisa, a não ser para avivar as feridas. Tenho que fugir à vontade de contar o que desejava. Não quero incomodar ninguém. Tenho que fugir de mim próprio. Dói ter que viver com o que escrevo.

"Salvem todos"...

Tenho que confessar, não consigo deixar de pensar nos jovens aprisionados na caverna tailandesa. Estou permanentemente à procura de notícias e evolução dos acontecimentos. Tantas pessoas preocupadas com os jovens. Uma perfeita manifestação de humanidade. O envolvimento e a necessidade de ajudar os nossos semelhantes, independentemente de tudo, constitui a única e gratificante medida da nossa condição humana. Estas atitudes, e exemplos, são uma garantia que me obriga a acreditar na minha espécie. Eu preciso de acreditar. Não invoco Deus por motivos óbvios. Invoco e imploro que os representantes da minha espécie façam o que tenham a fazer para honrar e dignificar a nossa condição. Salvem todos, porque ao salvá-los também ajudam a salvar cada um de nós.

São Sebastiao

Tarde de domingo de inverno. Um sol infantil diverte-se convidando os desejosos de calor a espraiarem-se debaixo dos seus raios. Não lhe respondi, tinha de ir a um funeral. Na estrada secundária observei um movimento inusitado para aquele lado meio deserto. O que é que estará a acontecer? Ao fim de meia centena de metros observo uma mancha escura e silenciosa a invadir a estrada. Estacionei o mais possível à direita para deixar passar uma estranha procissão. Para a terríola era muita gente, de idade a maioria, vestidos de escuro, com uma ou outra criança com ar divertido e um casal de namorados que, indiferentes ao momento, iam manifestando ternura amorosa. Os devotos iam ao molhe, sem ordem, até pareciam uma coorte romana a ir para a batalha. As suas faces eram dignas de fazerem parte dos quadros da Paula Rego. Ainda procurei sinais de alguma devoção, mas, sinceramente, não consegui vislumbrar, pelos menos nos que foram alvo da minha atenção. Senti que nos tempos do paganismo hordas s...